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terça-feira, 26 de outubro de 2010

MÁQUINA MORTÍFERA

Uma política de extermínio levada a cabo pela polícia carioca, com apoio de setores da mídia e a omissão do Ministério Público e do Judiciário, vem provocando um verdadeiro genocídio no Rio de Janeiro. Nesta década já foram eliminadas quase 10 mil pessoas, a maioria delas nas favelas da capital

Por Marcelo Salles (Matéria retirada da Revista Caros Amigos)

Hanry Silva voltava da casa de uma colega, numa favela chamada Boca do Mato, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O nome tem sua razão de ser. O lugar dá para uma montanha, no bairro Lins de Vasconcelos, onde a vegetação nativa ainda é preservada. Em vez de retornar pela rua, ele decidiu fazer o trajeto mais curto: pelo alto do morro. Assim, caminhando próximo aos postes de energia do topo da montanha, Hanry cruzou pouco mais que 1 Km. A vista abrevia ainda mais a viagem: com tempo bom é possível ter uma visão panorâmica da cidade, emoldurada pela Ponte Rio-Niterói e pela Baía de Guanabara. Eram cinco da tarde quando se aproximava de sua casa, no Morro do Gambá – também conhecido como Nossa Senhora da Guia.

O estudante já estava bem perto, nem 100m faltavam. Ao chegar, tomar banho, trocar de roupa e seguir para o colégio. Estava de bermuda preta e sem camisa. Vinha balançando a chave de casa, despreocupado, fazendo um caminho ao qual já se habituara. No entanto, aquele 21 de novembro de 2002 seria diferente. Hanry foi surpreendido por policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar e arrastado uns 20m abaixo. Foi posicionado entre uma pedra de 2m x 1,5m e um arbusto com folhagem densa e suficientemente grande para encobrir o resto de visão que alguém poderia ter do lugar. A casa mais próxima dali fica a uns dez minutos de caminhada, em mata semifechada.

Por volta de 17h40, um estampido ecoou no Morro do Gambá. Aos dezesseis anos de idade, Hanry foi assassinado com um tiro certeiro no coração. Tinha 1,65m, era mulato, corpo seco. Cursava o primeiro ano do ensino médio – nunca repetiu – e sonhava ser jogador de futebol, como tantos outros garotos.

No dia seguinte sua mãe acordou preocupada. O filho não havia dormido em casa. Márcia Jacintho percorreu a favela toda atrás de notícias, quando teve a ideia de ir ao hospital mais próximo. No Salgado Filho ficou momentaneamente aliviada: apenas dois jovens haviam sido encaminhados pela polícia na noite anterior, ambos descritos como traficantes que já chegaram mortos. Márcia continuava a busca quando alguém ligou do IML: “Vem pra cá porque acho que mataram seu filho”.

Chegando lá, Márcia começou a morrer em vida. A dor é tanta que hoje, quase sete anos depois, ela ainda chora quando recorda a cena: “Meu filho não teve velório. Tava inchado, um cheiro muito forte, muito escuro, ninguém o reconheceu”. Márcia começou a morrer por um lado, mas de outro nasceu uma guerreira que iria lutar com unhas e dentes para fazer justiça. Suas razões de viver passaram a ser basicamente essas: provar que seu filho não era traficante, como acusara a polícia, e responsabilizar os assassinos.

Inicialmente, Márcia fez o trabalho de investigação sozinha, pois a autoridade competente alegava não dispor dos recursos necessários. Então ela voltou ao local do crime, fez a primeira reconstituição com as próprias sandálias, fotografou, encontrou testemunhas. Até o boletim ambulatorial do hospital ela foi pegar, já que a Delegacia de Polícia não se mexia.

Essa história ela me conta enquanto vasculhamos os arredores de onde Hanry foi assassinado. Do pé ao topo, demoramos quase uma hora de subida bastante puxada. O Morro do Gambá tem centenas, talvez milhares de casas, de todos os tipos: alvenaria, madeira, compensado ou tudo misturado. Aqui, a maior parte da população é negra. E pobre. Serviços públicos como coleta de lixo demoram a chegar, deixando o chão imundo, sobretudo nas partes mais altas. Ao lado da pequena quadra de futebol, de terra batida, há um barranco imenso, uns cem metros quadrados de sacos plásticos, restos de comida e sujeira de todo tipo.

RECENTEMENTE LANÇADA A SEGUNDA EDIÇÃO DO FILME "TROPA DE ELITE", ESTE É UM BOM MOMENTO PARA SE DISCUTIR A AÇÃO DA POLÍCIA NO BRASIL. DIANTE DISTO, COMENTE:

COMO VOCÊ AVALIA A ATUAÇÃO DOS POLICIAIS BRASILEIROS?

2 comentários:

  1. Muita gente acha que na favela só há bandidos. Enquanto esse tipo de pensamento não mudar, os policiais brasileiros vão continuar matando pessoas inocentes. Diante de policiais que cometem essas atrocidades (como a que é descrita na matéria), eu penso que o Estado está DUAS VEZES errado ao prestar seu papel:
    Primeiro, porque o governo não oferece uma educação de qualidade que evite que os jovens ingressem no mundo do crime; segundo, porque o mesmo governo não oferece um treinamento adequado para que os policiais saibam atuar de forma correta na sociedade.
    No fundo, as duas questões têm origem na mesma causa: a falta de educação.

    Conto um caso que aconteceu comigo recentemente:
    Eu e um amigo chileno estávamos na fila de entrada de um show, quando percebemos que os policiais estavam revistando as pessoas. Na vez do meu amigo, o policial logo o encarou e o revistou. Na minha vez, eu levantei as mãos, permitindo que ele me revistasse, mas nem sequer olhou para a minha cara. Como meu amigo é pardo e tem traços de hispanoamericano, pensaram que ele poderia portar drogas ou armas, ao contrário de mim, que sou branco.

    Muitos policiais ainda alimentam esse tipo de pensamento: se a pessoa é negra, ou está suja, ou tem tatuagem, ou possui um estilo próprio, já é considerada "mau elemento". Santa ignorância!

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  2. No Brasil é difícil saber quem é o bandido e quem é a polícia, homens são treinados para matar, humilhar e baseiam-se num único critério: "homem preto, pobre e favelado". Já no treinamento, os policiais são submetidos a práticas desumanas e desrespeitosas entre si próprios, como sinônimo de força e lealdade. A formação de um policial deveria ser encarada pela sociedade, com muito mais seriedade e toda a "metodologia de ensino" utilizada atualmente, durante a formação, extinta.
    Moro em SP e há algum tempo tenho observado atitudes vergonhosas de policiais no trânsito, entre elas, passar em farol vermelho, estacionar em local proibido, alta velocidade e recentemente levaram o retrovisor do carro do meu marido. Este é um exemplo, infinitamente pequeno em relação ao exposto no texto postado, porém revela a "segurança" prestada pelo Estado.

    Fernanda.

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